‘Não vou prender o dedo na porta’, diz homem sem mãos que vai tirar CNH

Autoescolas de Ponta Grossa não tinham carro adaptado para deficientes.
Todos os dias, Daniel pedala cerca de 30 km para ir e voltar das aulas.

“Eu transformei olhares de compaixão em olhares de admiração”, diz Daniel Auer Dias, de 39 anos. Embora a paixão do “ciclista sem mãos”, como ele mesmo se chama, ainda seja a bicicleta, Daniel nunca desistiu de tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CHN). Foram quase 7 anos de espera até que o primeiro Centro de Formação de Condutores de Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais do Paraná, oferecesse um carro adaptado para a deficiência dele. “Eu evito andar de ônibus porque é difícil me equilibrar e também não quero ocupar o lugar de uma gestante ou de um idoso. De carro, não vou precisar mais tomar chuva. O bom é que nunca vou correr o risco de prender o dedo na porta”, brinca.

Deficiência de Daniel se deve a um medicamento que a mãe ingeriu na gravidez (Foto: Daniel Auer Dias/arquivo pessoal)
Deficiência de Daniel se deve a um medicamento,
a talidomida, que a mãe ingeriu na gravidez
(Foto: Daniel Auer Dias/arquivo pessoal)

Apesar da deficiência, Daniel diz não ter limitações. “Não deixo de fazer nada. Desde descascar uma mexerica até fazer aviões de papel e tirar fotos”. O problema se deve a um medicamento que a mãe dele tomou para enjoo durante a gravidez, a talidomida. Quando ingerida na gestação, a droga restringe o crescimento dos membros do bebê, que nasce com má formação. O ciclista relata que, logo que nasceu, tentaram esconder o problema da mãe. “Nos primeiros dias, me enrolavam em uma manta para que ela não desconfiasse, mas uma hora não deu para esconder mais, né?! Minha mãe chorou muito”, conta.

Ele garante que a mãe, já falecida, era protetora, mas que os pais nunca o trataram diferente dos irmãos. Daniel diz que, quando tinha 4 anos, derrubou os palitos de uma caixinha de fósforo no chão. “Minha mãe me contou que todos pararam para ver o que ia acontecer. Eu recolhi todos os palitos e guardei de novo na caixa. Ela disse que foi a partir daí que teve certeza da minha capacidade”, lembra.

Daniel lembra que, ainda quando criança, sonhava em ter uma bicicleta. “Todos os anos, eu pedia de presente no Natal, mas nunca ganhava. Eu gostava de correr ao lado dos meus amigos que tinham bicicleta e ficava imaginando como seria pedalar, sentir o vento no meu rosto”, descreve. Até que um dia, Daniel encontrou uma bicicleta – velha, suja, sem pneus, com as rodas tortas e sem freio – jogada em um terreno baldio. “Minha mãe quase ficou louca. Depois de muitos tombos, aprendi a pedalar”, revela.

Vida profissional
Os anos passaram e a bicicleta foi deixada de lado. Na adolescência, Daniel passou a ajudar o pai com conserto de eletrônicos. “Eu adorava lidar com os videogames”, confessa. Mexer com peças pequenas, garante o ciclista, nunca foi problema. Aos 16, ele resolveu vender suco pelas ruas de Ponta Grossa. “Por dia, eu andava uns 30 km”, afirma. Mais tarde, Daniel trabalhou como pedreiro e ainda teve outros empregos, mas não se esquece de quando tentou, e não conseguiu, uma vaga em uma empresa de segurança. “Mesmo depois de imobilizar um segurança, para provar que eu era capaz, fui dispensado por causa da minha deficiência”, diz. Na época, a filha de Daniel havia acabado de nascer. “Chorei desesperadamente. Tive medo de não conseguir sustentar minha família”, relata.

Às vezes, Daniel também trabalha como pedreiro (Foto: Daniel Auer Dias/arquivo pessoal)
Às vezes, Daniel também trabalha como pedreiro (Foto: Daniel Auer Dias/arquivo pessoal)

Foi então que apareceu a oportunidade de trabalhar na Associação Pontagrossense de Emancipação para Deficientes (Apedef). No novo emprego, Daniel voltou a se aproximar do ciclismo e de outros esportes. “Comprei uma bicicleta nova e passei a me dedicar à atividade”, declara. Além de pedalar profissionalmente, ele aprendeu como regular marchas e freios e também a trocar pneus.

Em 2007, Daniel fez uma longa viagem de bicicleta. Ele saiu de Ponta Grossa e seguiu para Itajaí, em Santa Catarina, para participar de jogos para pessoas portadores de deficiência. Durante os cinco dias, foram cerca de 350 km pedalados. Meses após fazer o trajeto, o ciclista descobriu que a mãe estava com câncer e prometeu que, se ela se curasse, iria de bicicleta até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, em outubro. Infelizmente, não deu tempo. Um dia após o aniversário de Daniel, em 19 de junho, a mãe morreu. Mas, mesmo assim, em homenagem a ela, o ciclista fez o percurso. Em dez dias, ele pedalou 810 km. “Foram necessários três dias só para atravessar o Centro de São Paulo”, afirma.

Daniel prometeu para a mãe, que estava com câncer, que iria de bicicleta até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo (Foto: Daniel Auer Dias/arquivo pessoal)
Daniel prometeu para a mãe, que estava com câncer, que iria de bicicleta até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo se ela se curasse (Foto: Daniel Auer Dias/arquivo pessoal)

Hoje, Daniel se dedica, principalmente, a palestras sobre segurança no trabalho e motivação. Enquanto não tira a CNH, a bicicleta ainda é o principal meio de transporte dele. “Para ir e voltar da autoescola, pedalo cerca de 30 km todos os dias. Tem uma a 700 m da minha casa, mas não tem um carro adaptado”, lamenta.

Ainda devem ser feitos mais ajustes no carro adaptado (Foto: Alana Fonseca/G1)
Ainda devem ser feitos mais ajustes no carro adaptado
(Foto: Alana Fonseca/G1)

CNH
De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em 2013, 2.844.823 condutores tiraram a primeira habilitação no Brasil. Do total, 955.131 motoristas possuem algum tipo de observação de restrição na carteira, que pode ser desde uma deficiência visual simples até uma paraplegia. Desse número, 2,5% correspondem a moradores do Paraná.

A proprietária da autoescola que o ciclista frequenta, Lúcia Scheiffer, conta que investiu recentemente no carro adaptado. “Eu percebi que havia muitas pessoas com deficiência e com vontade de tirar a CNH. Então, gastei, até agora, cerca de R$ 10 mil só em adaptações”, relata Lúcia. Para que Daniel comece as aulas práticas, ainda são necessários mais ajustes no carro, exigidos pelo Departamento de Trânsito do Paraná (Detran/PR). “Há condições que nós contestamos porque convivemos e conhecemos bem as limitações do Daniel”, explica um dos professores da autoescola, Ricardo Scheiffer. Ainda devem ser decididos, em breve, os ajustes definitivos no carro da autoescola. “Farei também as mudanças necessárias no meu carro”, garante Daniel, que está feliz com a conquista.

Fonte: G1

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